(Por Laura Gonçalves Sucena)

Estimular a criança a desenhar é uma importante ferramenta de expressão. A atividade é uma das maneiras de perceber o desenvolvimento dos pequenos nas diferentes etapas da infância. Pensando nisso, a Casa da Criança Madre Anastácia promoveu a formação “Interpretando o Desenho Infantil para Professores”, com o médico psicanalista André Marroig, coordenador da Escola Paulista de Psicanálise.

Durante o encontro, que teve como objetivo capacitar os profissionais da instituição a compreenderem os estágios maturacionais das crianças em seu desenvolvimento psicomotor, o médico ressaltou como o desenho auxilia professores e monitores. Por meio da observação dos desenhos, que funciona como ferramenta lúdica, é possível detectar se a criança está vivenciando adequadamente determinada fase do desenvolvimento.

Entender que na primeira infância o desenho não é uma obra de arte e sim o retrato do desenvolvimento psicomotor da criança é fundamental. “O desenho é puramente arquetípico, ou seja, mostra o funcionamento mental. É mais um instrumento de percepção do estágio de amadurecimento, que é diferenciado em cada criança e em cada fase”, ressaltou o médico.

Nos primeiros dois anos, os pequenos desenham rabiscos ou garatuja (riscos desordenados) e isso faz parte do desenvolvimento. “A criança não tem consciência de que o risco é a consequência de seu movimento. Geralmente segura o giz/lápis em forma de garra e todo o corpo acompanha o movimento. É importante dar aos pequenos papéis grandes e que possam ser presos ao chão para que possam ampliar o movimento e desenhar livremente”, falou Marroig.

A partir dos 3 anos, os pequenos já começam a fazer um círculo completo e os movimentos dão forma a figura humana. “Geralmente a cabeça é desenhada maior que o resto do corpo. É nessa fase que a criança deve ser convidada a desenhar, mas nunca obrigada”, explicou o médico.

Os traços, aos poucos, vão sendo modificados e o desenho da criança vai também tomando novas formas, tornando-se mais identificável e compreensível.  “São diversas as fases e os desenhos nos dão uma base do contexto em que a criança vive. Por isso temos que ficar atentas às fases de desenvolvimento dos pequenos”, observou a coordenadora pedagógica da instituição, Suzy Mara da Silva.

De acordo com Adriana Nunes Silva, técnica de referência do Programa Primeira Infância em Foco (PIF) da Fundação FEAC, foi importante para a instituição que trabalha com os dois seguimentos da Educação Infantil, creche e pré-escola, promover um encontro de reflexão, enfatizando o quanto o desenho infantil pode ser revelador em relação ao grau de maturidade, equilíbrio emocional e afetivo, e desenvolvimento cognitivo e motor da criança.

“Em cada faixa etária, os movimentos realizados pela criança ao desenhar apresentam características significativas e estreitamente relacionadas ao seu desenvolvimento global. Conforme a criança vai se desenvolvendo, vai alterando também a forma como ela se expressa graficamente”, observou Adriana.  

A creche Madre Anastácia é uma entidade parceria da Fundação FEAC que integra o projeto de apoio institucional do Programa Primeira Infância em Foco (PIF).

Hora da alfabetização

O médico ressaltou ainda que o desenho serve para mostrar quando a criança está pronta para o processo de alfabetização e também para indicar aquelas que precisam maturar outros sistemas antes de iniciá-lo. 

Diversos desenhos indicam a hora da alfabetização. O sol, por exemplo, começa a ser desenhado pela criança de 3 ou 4 anos no lado esquerdo do papel. “Ao ir amadurecendo esse sol fica centralizado e quando a criança está pronta para a alfabetização, o sol já se encontra no lado direito. É a maturação completa”, comentou o médico.

De acordo com Marroig, a base para o desenvolvimento é o brincar. É preciso correr, pular, cair e se mexer. “Os desenhos são ricos em informação e são um retrato do desenvolvimento físico e psíquico da criança e não criações artísticas. Por isso não devem ser expostos ou julgados. Comparações são danosas, visto que cada uma apresenta diferente estágio de maturação”, completou.

“A aquisição de determinados comportamentos motores tem repercussões extremamente importantes para o desenvolvimento da criança, por isso a relevância de se reafirmar a importância do brincar nesta fase da infância. Mais que desenhar, que é um desejo natural da criança e também uma possibilidade do brincar, é fundamental que o professor amplie o contato das crianças com sensações e experiências corporais em brincadeiras, para que assim elas possam em cada traço, risco, rabisco ou desenho, registrar verdadeiramente seu agir, sentir e pensar”, finalizou Adriana.

Segundo a diretora da creche, Janete de Fátima Alves, a formação foi muito rica por esclarecer a importância da observação e do olhar diferenciado que os professores e monitores devem ter. “Os desenhos são espelhos do que a criança sente e é importante encorajá-la a se expressar, mas sempre com um convite à atividade. Vamos ficar cada vez mais atentas aos desenhos para compreendê-los, e compreender o que a criança está sentindo”, ressaltou.

Programa Primeira Infância em Foco (PIF)

O PIF é uma iniciativa da FEAC que investe em esforços para promover o desenvolvimento da primeira infância com objetivo de assegurar que todas as crianças tenham desenvolvimento adequado à sua faixa etária.

Saiba mais: https://www.feac.org.br/primeira_infancia_em_foco/